quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Educação além dos muros

A área educacional tem se consolidado dentro dos museus, o que inclui o fortalecimento de parcerias, principalmente junto a secretarias da Educação e instituições escolares
Daniel Chiozzini

A educação patrimonial tem aumentado sua importância junto aos museus. Prova disso é que os setores educacionais começam a ganhar importância e, em muitos casos, não estão mais subordinados aos outros setores dessas instituições, mas sim desevolvendo trabalhos integrados. Além disso, a ação educativa ganhou amplitude e tem extrapolado o âmbito interno das instituições, envolvendo cursos de formação e parcerias com outras instituições, principalmente ligadas à educação formal. Alguns exemplos que permitem visualizar essas mudanças estão o Museu Lasar Segall, em São Paulo; o Museu Villa Lobos, no Rio de Janeiro; o Museu Imperial, em Petrópolis; e o Museu Afro-brasileiro, em Salvador. Outra característica que perpassa as atividades desenvolvidas por essas instituições é a preocupação com a qualidade das atividades e a formação do visitante.

A primeira consequência deste processo está, em maior ou menor escala, no foco voltado para o público escolar. No caso do Museu Lasar Segall, em São Paulo, esta ênfase foi potencializada por uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Daí surgiu o projeto denominado “Traços e Passos”, atendeu 212 professores ligados às Diretorias de Ensino de Caieiras e Diadema, na grande São Paulo.

O trabalho foi iniciado em Agosto deste ano, com um curso introdutório de capacitação que levou os professores a terem contato com princípios teóricos da apreciação estética, além de exercícios práticos de pintura no ateliê do museu. O curso também forneceu elementos para os professores trabalharem em sala de aula com um material didático produzido pela equipe do museu, que foi ampliado e atualizado em função do projeto. Em seguida, os professores optaram por um dos roteiros disponíveis de visitação ao museu a ser percorrido pelos seus alunos, retornaram às salas de aula e, após uma preparação prévia, retornaram com os alunos ao museu. O resultado foi a visita de cerca de 4.000 alunos do ensino médio ao museu, até o mês de Novembro, em diferentes períodos. Segundo Anny Christina Lima,coordenadora da área de Ação Educativa do Museu Lasar Segall, os horários dos funcionários do museu tiveram que ser reordenados, pois foram atendidos alunos inclusive no período noturno.

Lima também afirma que o compromisso com a qualidade das visitações e com a manutenção da estrutura do museu esteve presente desde o início do projeto: “Nossa preocupação sempre foi manter a qualidade e não uma ampliação massiva de público”, afirma. Tal princípio, segundo ela, é característico todas as atividades do museu, independentemente do projeto “Traços e Passos”. Ela afirma que os cursos de formação oferecidos aos professores que pretendem levar seus alunos ao museu fazem parte da rotina da instituição. “Temos seis módulos diferentes no curso para os professores, com diferentes graus de aprofundamento”, esclarece. Caso o professor não possa frequentar os cursos e queira levar seus alunos ao museu, deve visitá-lo anteriormente, retirar um exemplar do material didático para trabalho em sala de aula e realizar uma entrevista prévia com a equipe do museu para planejar a visita. Posteriormente, a visita com os alunos, que dura cerca de duas horas, envolve uma palestra introdutória, a visitação ao acervo e atividades artísticas no ateliê. Na sala de exposição, o educador se atem a uma análise mais pormenorizada de duas obras do artista, procurando fomentar uma leitura mais reflexiva e aprofundada do público. No “arte em família”, projeto voltado para a visitação de grupos familiares, durante o terceiro sábado de cada mês, a mesma dinâmica é mantida. O enfoque qualitativo também se revela na opção do museu de não manter visitas monitoradas convencionais.

O “traços e passos” foi concluído em Dezembro, com a realização de um seminário em que foram apresentados painéis e comunicações de alguns dos projetos desenvolvidos pelos professores a partir das visitações ao museu. Na ocasião, os trabalhos foram discutidos e debatidos com duas pesquisadoras da área.

Um embasamento teórico também aparece como um dos pilares das atividades educacionais bem sucedidas em museus. No caso do Museu Lasar Segall, além dos cursos que o museu promove e do seminário recentemente realizado, Anny Lima enfatiza o nome de alguns dos teóricos que fundamentam a proposta educacional do museu, como Abigail Housen, Robert Ott e Ana Mae Barbosa, reforçando também o papel da instituição como um espaço de pesquisa e articulação entre teoria e prática. Tal situação também pode ser visualizada no Museu Imperial, em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro. Segundo Regina de Castro Resende, chefe do Centro de Educação Patrimonial da instituição, as atividades desenvolvidas no museu estão enraizadas nas diretrizes pedagógicas consolidadas em um seminário realizado no prórprio museu, intitulado “Uso Educacional de Museus e Monumentos”, em 1983: “A expressão educação patrimonial foi, então, lançada pela primeira vez no Brasil, e seus princípios passaram a orientar as ações educativas no Museu Imperial, bem como as ações de outros profissionais responsáveis pela preservação, identificação e valorização do Patrimônio Cultural em nosso país.”, afirma Resende.

A partir dessa definição conceitual, o Museu Imperial tem desenvolvido atividades que dêem sentido ao acervo e buscando gerar questionamentos que levem os alunos a terem uma compreensão mais clara de si mesmos dentro de um contexto histórico-temporal. “Um aspecto pedagógico importante que destaco neste trabalho é a abertura para ouvirmos as experiências trazidas pelo público, seja ele de crianças ou adultos. A interação presente na troca de experiências entre o público e a equipe educacional do museu gera o enriquecimento da experiência de conhecimento”, afirma Resende.

O Museu Imperial desenvolve, segundo estes princípios, três tipos de atividades. A primeira delas é o projeto “D. Ratão”, voltado para alunos da educação infantil e educação especial (surdos e mudos), que obedece uma metodologia desenvolvida na própria instituição pela museóloga Maria de Lourdes Parreiras Horta, na qual o público é introduzido ao ambiente do museu por meio de um teatro de fantoches. A segunda é o “sarau imperial”, voltado para alunos da 4a. a 8a. Séries do Ensino Fundamental envolvendo uma dramatização interativa e músicas de época. A terceira é a “visita orientada”, voltada para grupos escolares e outros mais heterogêneos de até 25 pessoas, onde o público tem contato direto com o museu e seu acervo.

Mas a definição de princípios e teorias que embasem a ação educativa e as demais atividades museológicas não é algo simples, considerando que, muitas, vezes a equipe da área educativa não possui autonomia dentro dos museus, estando subordinada à outras, ou mesmo integrando-se de maneira precária. Resende afirma que a queixa é mencionada em encontros com colegas de outras instituições, mas não condiz com a realidade do Museu Imperial: “os técnicos de todos os setores atuam de forma a colaborar com projetos educativos desenvolvidos na instituição, tendo uma visão clara da sua importância”, afirma.

Segundo Resende, um fator que interfere fortemente no desempenho das ações educativas e nessa colaboração mencionada é o apoio da Direção do Museu, constatação também feita por Anny Lima, coordenadora do Museu Lasar Segall, e por Márcia Ladeira, da equipe de educação do Museu Villa Lobos, no Rio de Janeiro.

O caso do Museu Villa Lobos apresenta uma particularidade: o de desenvolver atividades baseadas na proposta de educação defendida pelo próprio maestro que dá nome ao museu, que pressupunha a utilização da música. Nas palavras da equipe educacional do museu, trata-se de proporcionar "a formação de uma consciência musical brasileira, promovendo a valorização das variadas formas de expressão da nossa cultura musical, trabalhando, de forma crítica, questões relativas à nossa identidade cultural". Entre as principais atividades que o museu desenvolve estão os “miniconcertos didáticos”, que são recitais didáticos orientados pelos técnicos do museu, na qual jovens instrumentistas em fase de profissionalização, selecionados via concurso, levam a música de Villa Lobos e de outros compositores a estudantes da rede pública e particular.

Apesar de realizados apenas dentro do museu, os mini-concertos já chegaram a se integrar outros projetos e, assim, ganhar amplitude. Em 1989, o museu desenvolveu o projeto “Escolinha de Música do Morro Santa Marta”, em Botafogo, favela situada a algumas quadras do prédio do museu. Daí surgiu uma experiência inovadora: jovens oriundos do projeto social foram encaminhados para o estudo profissionalizante em música e, em seguida, preparados para participar dos recitais didáticos.

A experiência da “Escolinha de Música do Santa Marta” - que era financiada pela extinta Legião Brasileira de Assistência (LBA) - foi interrompida em 1991, por falta de verbas. Segundo Márcia Ladeira, quando há mudanças na área de políticas públicas, o que inclui trocas na direção de uma escola ou nas secretarias da Educação, por exemplo, existe o risco de um trabalho terminar antes do previsto, como foi o caso deste projeto do Santa Marta. A educadora entende, porém, que os jovens deram continuidade ao processo ali iniciado, realizando trabalhos voluntários em sua comunidade, enquanto continuavam a participar dos Projetos do Museu: “Entendo que, fechando o ciclo do processo pedagógico, esses jovens dedicam-se a outros projetos sociais e, em efeito multiplicador, continuam a disseminar as idéias de Villa-Lobos”, conclui.

O museu, que também possui um acervo histórico e uma biblioteca para pesquisa, deve lançar em breve uma publicação com a memória dos 20 anos do projeto dos mini-concertos didáticos, apresentando a metodologia utilizada, os processos pedagógicos e os resultados alcançados.

O Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, de Salvador, também tem construído projetos em parceria com órgãos e instituições que respondem a demandas sociais, porém também destacam-se os associados à educação formal. É o caso do “Projeto de Ação Pedagógica e Capacitação de Jovens Monitores”, que envolveu a Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Visando contribuir com a implementação da Lei 10.639/03, que determina a inclusão da história e culturas africanas e afro-brasileiras no currículo escolar, o museu lançou, no último da 7 de Dezembro, um material didático que abordam a temática a partir de objetos do acervo da instituição. Paralelamente, o museu formou doze jovens negros para trabalharem como monitores e realizou encontros de formação com professores da rede municipal. Segundo a assessoria de imprensa do museu, o projeto foi financiado com recursos obtidos através de uma emenda parlamentar que assegura recursos para implementação da lei.

Sobre a grande incidência de parcerias com órgãos ligados à educação formal, nota-se que os mesmos são uma das fontes mais imediatas para viabilizar recursos para atividades educacionais dos museus, seja ela circunscrita uma visitação, ou projetos mais extensos. Deste modo, os museus acabam tendo como um dos seus principais focos, o público escolar.

Fonte: http://www.revista.iphan.gov.br/materia.php?id=134

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